Nunca fui um grande fã de boxe. Tive lá minha admiração por Eder Jofre, muito mais porque meu avô ficava me ensinando a fazer sombra do que por acompanhar as lutas do campeão brasileiro. Mas vivi a Era Mike Tyson ali, de olho na telinha, mesmo que muitas de suas lutas durassem pouco mais de um minuto. Lembro que estive na arena do MGM Grand (ainda sendo desmontada) poucos dias depois da primeira mordida que Tyson daria na orelha de Evander Holyfield. E tive a manha de fotografar dois amigos simulando a cena para a publicação onde trabalhava, então.
Mas a minissérie documental Tyson, que estreou na Netflix em 13/10, mostrou muito mais do que eu sabia sobre o lutador, sem correr o risco de ser chapa branca. Ao contrário, há uma superexposição consentida de Tyson, tocando em assuntos espinhosos como traição, prisão, drogas e morte.
Eu sabia que Mike teve uma infância difícil e pobre, vivendo em uma das regiões menos favorecidas em tudo, lá pelo Brooklyn. Depois de cometer pequenos delitos e somar 38 passagens por reformatórios, Tyson acaba sendo descoberto por Bobby Stewart. É ele quem o leva para Cus D’Amato. O lendário treinador enxerga em Mike o futuro campeão mundial dos pesos-pesados e pede a ele três anos de sua vida para mostrar resultados.
Mais do que um pacto, o contato com D’Amato supre o lutador de amor, autoestima e propósito. O menino que sofria bullying surgiria em breve como Iron Mike Tyson, lutador extremamente agressivo no ringue, capaz de derrubar adversários com um único soco. Literalmente.
Nada mal para quem vinha de um lar problemático, com um pai cafetão e uma mãe prostituta. Seria a fórmula clássica para o surgimento de um serial killer em outro momento, mas o boxe canaliza todas as frustrações de Mike em suas luvas e ele dá vazão para elas na forma de golpes. Não por acaso, tornou-se o lutador mais jovem do mundo a conquistar o cinturão dos pesos-pesados. D’Amato enxergou longe mesmo.
Contudo, mesmo batendo forte nos outros, foi a vida quem deu o troco em Tyson. A morte da mãe e, principalmente, a de D’Amato, balançaram seus alicerces. Surge o desbunde com a abundância de recursos e a invencibilidade inquestionável. Quanto mais obstáculos surgiam, mais ele batia. E não foi um lutador quem derrubou Tyson, mas a química. Lembram de Rocky III? Pois acontece quase o mesmo.
Tyson perde o “olho de tigre” para a química, para a noite, para a esbórnia… E aí, sim, é derrubado também no ringue. E a queda pareceu não ter fim. Drogas, bebidas, noitadas com mulheres e amigos, acusação de estupro, prisão e o retorno. Mais quedas, mais drogas, bebidas e mulheres e Mike já não tinha tanto iron assim.
Quando digo que a minissérie não é carta branca é porque tudo isso é levado ao espectador. Sem cobrar a tomada de partido. Até mesmo as lágrimas, inicialmente indesejadas para o público, acabaram entrando na versão final. O cara que batia forte se permite chorar para todos verem. O lutador com cara de mal, que não movia um músculo na encarada dos adversários, ri, sorri e desaprova muitas das suas atitudes. Parece em paz, ainda com a presença de química e recaídas. Mas seus olhos ainda são tristes, nem todas suas feridas fecharam e ele segue a vida.
O roteiro é incrível, não fosse a pura tradução da verdade. Me pergunto se algo ficou de fora, se Tyson vetou algum tema. Quando ele relembra a morte da filha, então, tenho certeza de que não.
Se o leitor acompanha minhas críticas por aqui sabe que tenho dedicado muito tempo aos documentários de celebridades. Por isso, posso afirmar que nunca vi um tão cru quanto Tyson. Não se trata de uma ferramenta para buscar perdão em massa ou reconhecimento. Talvez, para garantir um pouco de dinheiro para um cara que já teve muito e perdeu tudo… Tyson é apenas para ser visto.
