O ator neozelandês Sam Neill, um dos rostos mais reconhecidos do cinema internacional graças ao papel do paleontólogo Dr. Alan Grant na franquia Jurassic Park, morreu nesta segunda-feira (13), aos 78 anos, em Sydney, na Austrália. Segundo comunicado divulgado pela família, ele morreu cercado pelos parentes e “com a dignidade que caracterizou toda a sua vida”.
Neill revelou, em 2023, que lutava contra um linfoma angioimunoblástico de células T, um raro tipo de câncer no sangue, diagnosticado durante as filmagens de Jurassic World: Domínio. Em abril deste ano, afirmou que a doença estava em remissão.
Embora tenha se tornado mundialmente conhecido pelos filmes da franquia Jurassic Park, dirigidos por Steven Spielberg, sua carreira atravessou mais de cinco décadas, reunindo clássicos do terror, dramas premiados, superproduções de Hollywood e importantes trabalhos para a televisão.
Os primeiros grandes momentos no cinema
Depois de ganhar projeção no cinema australiano com Minha Brilhante Carreira (1979), Sam Neill conquistou seu primeiro grande papel internacional ao interpretar Damien Thorn, já adulto, em A Profecia III: O Conflito Final (1981), encerrando a clássica trilogia sobre o Anticristo.
No mesmo ano, protagonizou um dos filmes de terror psicológico mais cultuados do cinema europeu: Possessão (1981), dirigido por Andrzej Żuławski. Ao lado de Isabelle Adjani, entregou uma atuação intensa em uma obra que, décadas depois, seria reconhecida como um dos grandes marcos do horror psicológico.
Seu prestígio aumentou na televisão em 1983 ao interpretar o lendário espião britânico Sidney Reilly na minissérie Reilly: Ace of Spies. A atuação lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro e chegou a colocá-lo entre os favoritos para assumir o papel de James Bond após a saída de Roger Moore, posto que acabou ficando com Timothy Dalton.
Consolidação em Hollywood
Na segunda metade da década de 1980, Neill dividiu a cena com Meryl Streep em dois filmes dirigidos por Fred Schepisi. Em Plenty – O Mundo de Uma Mulher (1985), interpretou um agente britânico. Já em Um Grito no Escuro (1988), viveu Michael Chamberlain, marido da personagem de Streep, no drama baseado em um dos casos criminais mais conhecidos da Austrália.
Ainda em 1989, estrelou o suspense Terror a Bordo (Dead Calm), ao lado de Nicole Kidman e Billy Zane. O longa tornou-se uma das principais referências do suspense psicológico da época.
Em 1987, participou da polêmica minissérie Amerika, que imagina uma ocupação soviética dos Estados Unidos após uma derrota política e militar. Neill interpretou um dos principais oficiais soviéticos responsáveis pela administração dos territórios ocupados.
Em 1990, integrou o elenco de A Caçada ao Outubro Vermelho, adaptação do romance de Tom Clancy estrelada por Sean Connery e Alec Baldwin. Apesar de também participar de projetos ambiciosos, como Até o Fim do Mundo (1991), de Wim Wenders, e Memórias de um Homem Invisível (1992), dirigido por John Carpenter, foi no ano seguinte que sua carreira alcançou outro patamar.
O ano que mudou sua carreira
O ano de 1993 transformou Sam Neill em uma estrela mundial. Primeiro, viveu o fazendeiro Alisdair Stewart em O Piano, drama dirigido por Jane Campion que conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e três Oscars, incluindo Melhor Atriz para Holly Hunter e Melhor Atriz Coadjuvante para Anna Paquin.
Poucos meses depois, interpretou o paleontólogo Dr. Alan Grant em Jurassic Park, de Steven Spielberg. O filme revolucionou os efeitos visuais, tornou-se a maior bilheteria mundial de sua época e transformou Neill em um dos atores mais conhecidos do cinema. O personagem retornaria em Jurassic Park III (2001) e, duas décadas depois, em Jurassic World: Domínio (2022), reunindo novamente Alan Grant, Ellie Sattler (Laura Dern) e Ian Malcolm (Jeff Goldblum).
Após Jurassic Park, Neill alternou grandes produções e projetos autorais. Atuou em Mogli – O Menino Lobo (1994), da Disney, e estrelou outro clássico cult do horror, Na Boca da Loucura (1994), dirigido por John Carpenter.
Na televisão, interpretou o investigador Alvin Dewey em A Sangue Frio (1996) e recebeu novas indicações ao Emmy e ao Globo de Ouro ao viver Merlin na minissérie Merlin (1998), uma das produções de fantasia mais populares da década.
No cinema, ainda participou da ficção científica O Enigma do Horizonte (1997), que fracassou comercialmente, mas se transformou em um cult do gênero, além do drama O Encantador de Cavalos (1998), dirigido e estrelado por Robert Redford.
Prestígio na Austrália e retorno aos grandes sucessos
Nos anos 2000, Sam Neill passou a dividir seu tempo entre produções internacionais e filmes australianos e neozelandeses. Entre os destaques está a comédia A Antena (The Dish, 2000), um enorme sucesso de público na Austrália, além da elogiada interpretação do cardeal Thomas Wolsey na série The Tudors, papel que lhe rendeu novo reconhecimento internacional.
Em 2016, conquistou uma nova geração de espectadores ao estrelar A Incrível Aventura de Rick Baker (Hunt for the Wilderpeople), dirigido por Taika Waititi, considerado um dos filmes mais importantes do cinema neozelandês contemporâneo.
Também participou, em tom bem-humorado, de Thor: Ragnarok (2017) e Thor: Amor e Trovão (2022), novamente sob direção de Waititi.
Seus últimos trabalhos incluíram a minissérie Segredos da Família (2024), a série policial Indomável (2025), da Netflix, estrelada por Eric Bana, e a produção australiana The Twelve, lançada em 2025. Sam Neill também havia concluído sua participação em Godzilla x Kong: Supernova, previsto para chegar aos cinemas em 2027.
Uma carreira construída com versatilidade
Nascido em Omagh, na Irlanda do Norte, em 1947, Nigel John Dermot Neill mudou-se ainda criança para a Nova Zelândia, país onde construiu sua carreira e adotou o nome artístico Sam Neill. Formado em Literatura Inglesa, chegou a acreditar que nunca seria ator por causa de uma forte gagueira durante a juventude.
Além da carreira artística, dedicava-se à vinícola Two Paddocks, em Central Otago, e publicou, em 2023, a autobiografia Did I Ever Tell You This?, escrita após receber o diagnóstico de câncer.
Ao longo de mais de 50 anos de carreira, Sam Neill construiu uma filmografia marcada pela versatilidade. Transitava com naturalidade entre o terror psicológico, dramas históricos, aventuras familiares, grandes blockbusters e séries de televisão. Por causa desse talento, tornou-se um dos atores mais respeitados de sua geração e um dos maiores representantes do cinema da Nova Zelândia no cenário internacional. Seu legado permanecerá vivo tanto para o público que cresceu com Jurassic Park quanto para aqueles que descobriram, ao longo dos anos, a riqueza de uma carreira repleta de personagens inesquecíveis.
